Gheraṇḍa Saṁhitā — घेरण्डसंहिता — Gheranda Samhita, Gheraṇḍa Saṁhitā; Gheraṇḍasaṃhitā
Significado: Compêndio ou coleção de Gheraṇḍa.
Definição
O Gheraṇḍasaṃhitā é um manual sânscrito de Yoga estruturado como um diálogo entre o mestre Gheraṇḍa e o discípulo Caṇḍakāpāli. É uma das exposições mais extensas das práticas físicas, respiratórias, meditativas e contemplativas associadas ao Haṭha Yoga pré-moderno.
O texto denomina o seu método ghaṭastha-yoga, o “Yoga do recipiente”. O corpo é comparado a um recipiente de barro que deve ser trabalhado e fortalecido através da disciplina, tal como um vaso cru necessita de ser cozido para se tornar resistente.
O caminho encontra-se organizado em sete disciplinas:
- ṣaṭkarma — purificação;
- āsana — firmeza;
- mudrā — estabilidade;
- pratyāhāra — serenidade ou controlo;
- prāṇāyāma — leveza;
- dhyāna — perceção direta;
- samādhi — libertação do condicionamento.
Origem e referências textuais
A obra possui sete capítulos, denominados upadeśas:
- Ṣaṭkarmopadeśa — técnicas de purificação;
- Āsanopadeśa — posturas;
- Mudropadeśa — mudrās, bandhas e concentrações;
- Pratyāhāropadeśa — retração ou domínio dos sentidos;
- Prāṇāyāmopadeśa — regulação da respiração;
- Dhyānayogopadeśa — meditação;
- Samādhiyogopadeśa — absorção contemplativa.
No primeiro capítulo, Gheraṇḍa apresenta seis grupos de técnicas de purificação:
- Dhauti;
- Basti;
- Neti;
- Laulikī;
- Trāṭaka;
- Kapālabhāti.
Estas categorias incluem numerosas subdivisões, algumas consideravelmente invasivas.
No segundo capítulo, o texto afirma que existem tantos āsana quantos os seres vivos. Entre 8,4 milhões de posturas, 84 seriam particularmente importantes e 32 consideradas úteis para os seres humanos. A obra descreve essas 32 posturas.
O terceiro capítulo apresenta 25 mudrā. O termo é utilizado num sentido amplo, incluindo gestos, selos corporais, bandhas, inversões, técnicas de concentração e práticas destinadas a dirigir o prāṇa.
Os últimos capítulos abordam a alimentação, o lugar adequado para a prática, a purificação das nāḍī, diferentes formas de prāṇāyāma, visualizações, meditação e métodos de samādhi.
Notas académicas
A autoria e a data exatas não são conhecidas. A análise dos manuscritos e do seu vocabulário levou vários investigadores a situar a composição da obra aproximadamente no final do século XVII ou início do século XVIII, provavelmente no nordeste da Índia. A localização e a cronologia permanecem aproximadas.
Não existe informação histórica segura sobre Gheraṇḍa e Caṇḍakāpāli. É possível que sejam figuras associadas a uma linhagem real, literária ou idealizada, mas o diálogo não constitui prova biográfica da sua existência.
O Gheraṇḍasaṃhitā é frequentemente apresentada, juntamente com o Haṭhapradīpikā e o Śivasaṃhitā, como um dos “três textos clássicos do Haṭha Yoga”. Esta classificação é moderna e didática; não corresponde necessariamente a um cânone tradicional reconhecido de forma uniforme.
O sistema de sete disciplinas não deve ser confundido com os oito membros do Yoga apresentados no Yogasūtra de Patañjali. Embora alguns elementos sejam comuns, a organização, a terminologia e as práticas são diferentes.
A obra atribui grande importância à purificação e preparação do corpo. Contudo, o seu objetivo final não é apenas saúde ou flexibilidade: as práticas conduzem progressivamente ao controlo do prāṇa, à meditação e ao samādhi.
As descrições de benefícios extraordinários, cura de doenças e obtenção de siddhi pertencem ao contexto religioso e médico pré-moderno da obra. Não constituem evidência clínica segundo os critérios científicos atuais.
Algumas técnicas descritas — incluindo a ingestão ou introdução de objetos, a provocação do vómito, retenções respiratórias intensas e manipulações internas — podem envolver riscos. A antiguidade ou autoridade tradicional de uma prática não garante a sua segurança.
Ver também: Haṭha Yoga · Haṭha Yoga Pradīpikā · Śiva Saṃhitā · Ṣaṭkarma · Āsana · Mudrā · Prāṇāyāma · Dhyāna · Samādhi · Caturaśītyāsana