Gheraṇḍasaṁhitā: o manual clássico que muitos instrutores ignoram
A Gheraṇḍasaṃhitā, geralmente pesquisada como Gheranda Samhita, é um dos mais importantes manuais pré-modernos de Yoga. Provavelmente composta no final do século XVII, apresenta um método organizado em sete etapas que integra purificação, postura, mudrā, recolhimento dos sentidos, respiração, meditação e samādhi.
O manuscrito secreto que ensina Hatha Yoga de corpo e alma
Quando se fala de Hatha Yoga, muitos instrutores acreditam que completar uma formação de 200 horas é suficiente para conhecer todos os textos importantes. No entanto, existem manuscritos clássicos que permanecem praticamente secretos para a maioria dos praticantes modernos, e entre eles destaca-se a Gheraṇḍa Saṃhitā. Este texto não é apenas um guia de posturas e respiração; é um manual completo e sistemático que documenta práticas de purificação, posturas, exercícios respiratórios e meditação de forma meticulosa, quase obsessiva. Enquanto alguns textos clássicos, como o Yoga Sutra de Patañjali, se concentram na filosofia e no desenvolvimento mental, ou o Haṭhayoga Pradīpikā, que oferece algumas técnicas práticas, a Gheraṇḍa Saṃhitā organiza o Hatha Yoga como se fosse uma receita passo a passo, sem deixar nada ao acaso.
Comparada a outros manuscritos, a Gheraṇḍa Saṃhitā revela-se única na sua abordagem integrada. O Śiva Saṃhitā apresenta muitas das mesmas técnicas, mas com um tom mais literário, enquanto textos menores e mais esotéricos, como o Amṛtasiddhi e o Amanaska Yoga, focam-se em exercícios avançados de respiração e meditação que exigem orientação e experiência. O Dattātreyayogaśāstra e a Vasiṣṭhasaṃhitā oferecem uma perspetiva mais filosófica e ética, lembrando que a prática física deve sempre andar de mãos dadas com o desenvolvimento mental e moral. Mesmo o Bhagavad Gita, que não detalha técnicas físicas, continua a ser uma referência central, ensinando disciplina, atenção e ética, complementando os aspectos práticos do Hatha Yoga. A Gheraṇḍa Saṃhitā surge, portanto, como uma ponte entre teoria, prática e filosofia, mostrando que yoga é muito mais do que sequências rápidas e exercícios isolados.
A obra chama ao seu método ghaṭastha yoga, literalmente “Yoga do recipiente” — sendo o corpo comparado a um recipiente que deve ser preparado e purificado.
As sete etapas ensinadas pela Gheranda Samhita
O que torna a Gheraṇḍa Saṃhitā particularmente fascinante é o seu rigor. Desde a purificação do corpo e da língua, até exercícios respiratórios complexos e meditação profunda, cada detalhe é pensado para preparar o corpo e a mente de forma completa. É impossível ler este texto e não perceber que Gheraṇḍa tinha a clara intenção de criar um manual que integrasse corpo, respiração e mente, desafiando a ideia moderna de que yoga se esgota em cursos curtos ou em conhecimentos superficiais. Existe até um certo humor implícito no cuidado obsessivo com detalhes que hoje parecem triviais, como instruções de higiene e massagens, lembrando-nos de que a disciplina é parte essencial da prática.
Por isso, a Gheraṇḍa Saṃhitā não é apenas mais um texto antigo. É um convite a compreender a profundidade real do Hatha Yoga e a perceber que muitos dos instrutores modernos, limitados a formações breves, mal arranham a superfície do que estes manuscritos clássicos oferecem. Ler este texto é descobrir uma tradição rica, complexa e meticulosamente estruturada, que desafia o praticante a ir além do óbvio e a cultivar rigor, curiosidade e, inevitavelmente, um pouco de humor ao imaginar um yogi medieval seguindo cada instrução à risca.
No final, conhecer a Gheraṇḍa Saṃhitā é lembrar que o verdadeiro yoga não se limita ao que se aprende em poucas semanas.
É um convite para explorar, estudar e praticar com atenção, reconhecendo que a tradição clássica é profunda, exigente e, de certa forma, deliciosamente exigente.
Vic